
Procura-se jogador veloz, que ataque e defenda na mesma intensidade, saiba cruzar e se possível que marque alguns golzinhos, assim como jogador alto, que tenha noção de posicionamento, tenha um bom desarme, antecipação e jogo aéreo, se tiver habilidade será diferenciado para atuar como lateral e zagueiro, respectivamente. Se você preenche esses requisitos procure uma categoria de base no Brasil, pois meu amigo você será quase uma miragem para eles.
Uma pergunta que muitas pessoas fazem é como o Brasil consegue revelar tantos jogadores se o investimento é deficitário e mal planejado? Várias são as teorias: ‘dom natural dos jogadores’, agentes e olheiros atuantes. Ainda que com esses problemas conseguimos ter nomes como Neymar, Lucas, Damião, Dedé e Oscar.
Mas mesmo assim um fenômeno tem chamado a atenção, nunca estivemos com uma safra tão pobre e escassa de zagueiros e laterais. Será que falta mão de obra especializada ou falta comunicação entre quem comanda as categorias de base dos clubes e dirigentes do departamento profissional que deveriam solicitar tal demanda, a famosa lei da oferta e da demanda.
Depois de Cafu e Roberto Carlos, por exemplo, a Seleção Brasileira nunca mais conseguiu encontrar dois laterais que fossem tão dominantes e seguros em sua posição, assim como em nossos clubes, que também não conseguem se acertar (o Santos teve que buscar o uruguaio Fucile para suprir a saída de Danilo).
Atualmente, alguns jogadores têm conseguido certo destaque como Cicinho do Palmeiras (que não é uma revelação, pois já rodou um bocado), Fágner do Vasco (tem idade olímpica e na minha opinião um dos que tem mais potencial), Cortez do São Paulo (era conhecido como Bruno Negão e era atacante no começo da carreira, até se firmar na lateral), mas, que não inspiram confiança, por exemplo, com a camisa amarela numa Copa do Mundo!
Embora tenha feito uma temporada regular no ano passado, não há discussão que o melhor lateral-direito no Brasil há tempos é Leonardo Moura do Flamengo, que completará em outubro 34 anos e já não serve para a Seleção. Logo, se há uma enorme falta de bons jogadores para essas posições, por que então não começar a formá-los desde lá de baixo?
Não adianta só termos bons meias ou atacantes, o futebol moderno mostra que é preciso saber marcar, apoiar e os laterais (ou alas como queiram), hoje são de suma importância, vide Dani Alves no Barcelona.
Enfim, será que nesse monstruoso universo de garotos que têm o sonho de um dia se tornarem jogadores, que lotam as escolinhas, as peneiras de centenas de clubes espalhados pelo Brasil, não é possível que todos eles queiram ser apenas meias e atacantes.
Ou será? É quase um fato que ninguém quer atuar como zagueiro e lateral, pois todos os garotos que surgem estão em busca de fama e dinheiro e convenhamos isso leva um pouco mais de tempo se você atua em posições dos chamados operários da bola. Os laterais ou alas, hoje em dia são fundamentais para quase todo esquema que se preze e até conseguem marcar seus golzinhos e aparecer com destaque. Mas o que todos querem é gol, passe para o companheiro e é isso que os jovens buscam, fama rápida, e isso vem para os jogadores que atuam na linha de frente.
Como não relacionar o sucesso repentino de jogadores como Abuda e Jô, por exemplo, que fizeram fama rapidamente pelos gols e por conta da idade e a demora para a consagração dos volantes Paulinho e Wellington, hoje peça chave, embora esteja machucado no São Paulo, que embora venham se destacando há tempos, somente hoje recebem o respeito que merecem. Parece que o pensamento arcaico que quem tem de jogar como zagueiro são os mais fracos tecnicamente, ainda prevalece. Até os goleiros tem seu momento de glória como uma defesa ou outra.
O futebol brasileiro está seguindo o caminho do Leste Europeu, afinal, é preciso investir cada vez mais nas categorias de base e não ficar comprando jogadores medianos por verdadeiras fábulas.
Destaco nesse texto o livro ‘’O Jogo da Minha Vida: Histórias e Reflexões de um Atleta’’ do zagueiro do Corinthians, Paulo André. Além de ser uma leitura obrigatória para quem gosta, nem digo muito, o mínimo de futebol, o livro narra as dificuldades encaradas pelos jovens ao ingressar nesse meio em que pouquíssimos se destacam e muitos ficam pelo caminho. Desde as exaustivas concentrações sob o ponto de vista dos atletas, a saída precoce de casa, as responsabilidades e todo o caminho das pedras em busca da glória como atleta e homem.
É interessante em um dos trechos a sagacidade e malícia que Paulo André utiliza para conseguir uma sobrevida em uma das peneiras promovida pelo São Paulo. Ao chegar ao Morumbi ele se senta em último na fila de jogadores que iriam participar do teste e nota que a quantidade de meias e atacantes é bem superior ao de zagueiros e ao ser perguntado sobre sua posição, instintivamente levado pelo instinto de sobrevivência responde zagueiro (embora nunca tenha atuado na posição, na época se destacava como meia-atacante) para dar prosseguimento ao seu sonho. O que às vezes parece faltar para alguns.
Nenhum comentário:
Postar um comentário